Porque é que os miúdos querem vestir a camisola vermelha de Espanha
Já repararam? Nos últimos meses, os campos de futebol de miúdos em Portugal estão cheios de vermelho. Não o vermelho do Benfica, nem o do United. É um vermelho mais vivo, com detalhes azuis e amarelos. É a camisola de Espanha. Depois de anos em que a seleção vizinha parecia uma equipa em fim de ciclo, eis que voltaram a dar que falar. E os miúdos, esses, agarram-se ao que é novo e empolgante.
Tudo começou no último Europeu. Espanha ganhou. Não ganhou com chouriço, ganou a jogar bonito. Miúdos como Lamine Yamal, que nem 17 anos tinha na altura, fizeram malabarismos com a bola que pareciam daqueles vídeos do YouTube. E os miúdos portugueses viram. Viram um rapaz da idade deles a decidir jogos grandes, a rir-se enquanto driblava, a bater recordes atrás de recordes. Como é que um miúdo não quer imitar aquilo?
O meu sobrinho tem 10 anos. Joga no clube da terrinha. A paixão dele até há um ano era o Ronaldo, claro. Mas depois do Europeu, o quarto dele ganhou um pôster novo. Não é o CR7. É o Yamal. Diz ele: "O Yamal faz coisas que eu nunca vi ninguém fazer." No último Natal, pediu uma camisola. Qual? A vermelha. Com o número 27 e o nome "Yamal" nas costas. O pai andou às voltas, comparou preços, achou as lojas oficiais caras (e eram), e acabou por arranjar uma solução que não arrebentou o orçamento. O miúdo abriu o embrulho, vestiu a camisola, e não a tirou durante três dias. Até para a escola a queria levar.
Há ali qualquer coisa de especial na camisola de Espanha. Talvez seja a cor – aquele vermelho "La Roja" que se destaca em qualquer relvado. Talvez seja a simplicidade – sem patrocínios enormes a tapar o peito, apenas o escudo da federação. Ou talvez seja apenas o momento. Porque Espanha está na moda. E os miúdos, como sempre, sabem o que está a dar.
A seleção espanhola continua a vencer jogos, a formar novos talentos. O Yamal já é presença habitual no Barcelona, Nico Williams desata nós nos defesas, Pedri e Gavi começam a ser os veteranos mesmo sendo jovens. O futuro é risonho. E os miúdos portugueses, mesmo sendo rivais históricos, reconhecem qualidade. Não há cegueira. Quando um jogador é bom, é bom. E os miúdos querem usar as cores desse jogador.
Uma mãe de Setúbal contou-me há dias que a filha dela, 8 anos, é fã assumida da seleção espanhola feminina. Viu os jogos do Mundial, viu a Alexia Putellas e a Aitana Bonmatí, e decidiu. Pediu a camisola de Espanha para o aniversário. A mãe hesitou – afinal, somos portugueses, não era suposto torcer contra? Mas a miúda respondeu: "Mãe, elas jogam melhor. Eu quero ser como elas." Difícil argumentar. A mãe comprou. A miúda usa a camisola nos treinos, e os colegas até já se habituaram.
Quando se fala numa "Camisa de futebol Espanha Infantil", está-se a falar de algo que transcende a rivalidade. É sobre admiração. É sobre ver um puto de 16 anos a fazer história e pensar: "Eu também quero." É sobre vestir um símbolo de alegria e futebol ofensivo. E isso é bonito, independentemente da nacionalidade.
O que os pais precisam de saber é simples: os putos crescem rápido. Num instante, a camisola que lhes ficava larga já nem os braços cobre. E na idade deles, as camisolas sofrem. Levam com lama, relva, escorregadelas, mochilas arrastadas no chão. Gastar 80, 90 euros numa camisola original para ela ficar pequena ou estragada em meses? Poucos pais podem. A maioria não pode. E isso é normal.
Por isso, há mais e mais famílias a procurar alternativas. Não porque não gostem de futebol. Gostam tanto que querem que os filhos possam usar a camisola todos os dias, sem medo. Sem aquele stress de "tira isso que é cara". O objetivo é a felicidade, não a ostentação.
Espanha tem hoje um poder de atração enorme sobre os mais novos. Não é como no tempo do Xavi e Iniesta, que eram grandes mas pareciam professores. Agora são miúdos. São rapazes e raparigas que podiam estar na mesma escola que os nossos filhos. E isso é identificação pura. O miúdo vê o Yamal marcar um golo e pensa: "Ele é quase da minha idade. Eu também posso." A camisola vermelha torna-se uma armadura. Vestiu, virou herói.
A história do meu sobrinho não é única. Conheço casos semelhantes em todo o país. Crianças que pedem a camisola de Espanha aos pais, pais que procuram preços que não doam, crianças que ficam radiantes. O futebol é assim mesmo: une, inspira, cria sonhos. E os sonhos não têm fronteiras. Nem as camisolas deviam ter preços impossíveis. Porque o que fica não é a etiqueta. É o sorriso. E esse, qualquer pai sabe, é o que mais importa.
